|
O ENCONTRO Sem explicar nada a ninguém, eu decidi atracar o navio perto do lugar onde no ano anterior tinha encontrado os velhotes. Dei ordem ao comandante do navio para seguir mais para a frente pelo itinerário de comércio e alcancei a povoação sozinho num barco a motor. Eu tinha a esperança de encontrar os velhotes com a ajuda dos habitantes locais, de ver com os meus próprios olhos o Cedro Ressoante e combinar a forma mais económica de o trazer para o navio. Depois de amarrar o barco a uma pedra ia dirigir-me a uma das casas mais próximas, mas vi uma mulher só na margem e aproximei-me dela. A mulher estava vestida com um velhinho casaco acolchoado, uma saia comprida e tinha calçadas umas galochas altas de borracha como aquelas com que andam muitos habitantes do interior norte no Outono e na Primavera. Na cabeça trazia um lenço atado de tal modo que tapava completamente a testa e o pescoço. Era difícil de perceber quantos anos tinha. Eu saudei-a e falei sobre os dois velhotes que tinha encontrado no ano anterior.
- Contigo, Vladimir, no ano passado falaram o meu avô e bisavô, - respondeu a mulher. Eu admirei-me. A sua voz era jovem, a sua pronúncia muito precisa, tratou-me logo por “tu” e ainda disse o meu nome. Eu não me recordava do nome dos velhotes. Por acaso ter-nos-íamos apresentado? Pensei: “ Se calhar apresentámo-nos, uma vez que ela sabe o meu nome.” Decidindo também tratá-la por “tu”, perguntei: - E como te chamas? - Anastasia - respondeu a mulher e estendeu a mão com a palma virada para baixo, como se fosse para ser beijada. Aquele gesto da mulher da aldeia de casaco velho e galochas na margem deserta do rio, tentando comportar-se como uma senhora de alta sociedade, fez-me rir. Eu apertei-lhe a mão. Claro que não a beijei. Anastasia sorriu envergonhada e propôs que eu fosse com ela até à taiga onde vivia a sua família: - Mas é preciso andar vinte e cinco quilómetros. Isso não te incomoda? - É um bocado longe. E tu podes mostrar-me o Cedro Ressoante? - Posso. - Sabes tudo sobre ele? Contas-me? - Conto-te o que sei. - Então vamos. Pelo caminho Anastasia contou-me que a sua família e os seus antepassados, de geração em geração, têm vivido na floresta de cedro. E, pelas suas palavras, desde há milhares de anos. Entram muito raramente em contacto com as pessoas da nossa sociedade civilizada. Esses contactos ocorrem, não nos locais em que vivem permanentemente, mas quando eles vão aos lugares povoados o disfarçados de caçadores ou moradores de outras povoações. A própria Anastasia estivera em duas cidades: Tomsk e Moscovo. Apenas por um dia, [1]sem sequer passar a noite. Ela queria ver se não se enganara nas suas noções acerca do estilo de vida das pessoas da cidade. Vendendo bagas e cogumelos secos, ela conseguiu roupa e dinheiro para a viagem. O passaporte foi-lhe emprestado por uma mulher da aldeia. Anastasia não concorda com a ideia do avô e do bisavô de distribuir o Cedro a muitas pessoas. Quando lhe perguntei porquê, ela respondeu que os pedacinhos serão entregues tanto a boas como a más pessoas e, o mais provável, é que sejam apanhados na sua maior parte por indivíduos negativos e no fim trazer mais malefícios que benefícios. O mais importante, na sua opinião, é ajudar as pessoas boas, que conduzem a sociedade para a luz e não para um beco sem saída. Ao ajudar todos, o desiquilíbrio entre o bem e o mal continua ou ainda piora. Depois do encontro com os velhotes eu fui pesquisar a literatura de ciência popular e uma série de obras históricas e científicas nas quais se falava sobre as qualidades extraordinárias do Cedro. Agora eu tentava entender o que dizia Anastasia sobre o estilo de vida das pessoas da terra dos Cedros e pensava: “... com que é que isto se parece?” Eu comparava-os à família Lykov[2], que ficou famosa pelas publicações de V. Peskov. Uma família que também tinha vivido muitos anos instalada na taiga. Escreveu-se muito sobre eles no “Komsomolskaia Pravda”, na rúbrica “Beco da Sibéria”. Eu tinha ficado com a impressão de que os Lykov eram pessoas que conheciam bastante bem a natureza, mas eram ignorantes em termos de educação e compreensão da vida moderna. Aqui a situação era diferente. Anastasia dava a impressão de ser uma pessoa muito bem informada sobre a nossa vida e que sabia algo mais que eu não percebia muito bem. Ela opinava livremente sobre a nossa vida na cidade, conhecia-a. Nós passámos sorridentes uns cinco quilómetros de floresta e parámos para descansar. Ela tirou o casaco, o lenço, a saia comprida e colocou-os na concavidade de uma árvore, ficando com um vestido curto e leve. Eu admirei-me com o que vi. Se acreditasse em milagres classificava o que acontecera como algo do género da transmutação. Perante mim apresentava-se uma mulher muito jovem de cabelos compridos e dourados, com uma figura magnífica. Era difícil imaginar qual das vencedoras dos concursos de beleza mais prestigiados poderia competir com ela pelo seu aspecto exterior e, como depois se revelou, pelo intelecto. Tudo nela era atraente e encantador. - Tu provavelmente estás cansado. – disse ela. - Queres descansar? Sentámo-nos directamente na relva e eu pude ver o rosto dela mais de perto: sem qualquer maquilhagem, os traços perfeitos, a pele tonificada em nada aparentava as dos rostos expostos ao vento das pessoas da Sibéria profunda, uns grandes olhos azul acinzentados e lábios levemente sorridentes. Ela estava vestida com o vestido curto e leve, um pouco parecido com uma camisa de noite, mas dava a impressão de que não tinha frio, apesar dos 12-15 graus de temperatura. Eu decidi petiscar. Tirei da mala uma sandes e uma garrafa achatada com conhaque. Perguntei-lhe se queria beber, mas ela recusou-se a beber conhaque e também não comeu. Enquanto eu petiscava, Anastasia estava deitada na erva, com os olhos fechados em felicidade e como que entregue aos raios carinhosos do sol. Eles reflectiam-se em luz doirada nas suas palmas das mãos viradas para cima. Ela era linda e estava semi-nua. Eu olhei para ela e pensei: “Mas para que é que as mulheres em todas as épocas despem até ao limite as pernas, ou o peito, ou tudo de uma vez, com a ajuda de decotes e mini saias? Não é para chamar a atenção dos que as rodeiam - “ olha, eu sou tão bela, tão aberta e acessível”? E o que é que resta aos homens? Resistir à paixão da carne, e com isso rebaixar as mulheres com o seu desprezo, ou dar-lhes sinais de atenção e ir contra a lei dada por Deus?” Quando acabei de petiscar, perguntei: - Anastasia, tu não tens medo de andar sozinha pela taiga? - Aqui não tenho nada que temer. - É interessante, e como é que tu te defenderias se te encontrasses com dois ou três homens, geólogos ou caçadores? Ela não respondeu, apenas sorriu. Eu pensei: “Como é que esta jovem beleza, incrivelmente sedutora, pode não ter medo de nada nem de ninguém?”. Pelo que aconteceu depois eu tenho vergonha até hoje. Eu abracei-a pelos ombros e aproximei-a de mim. Ela não se opunha muito, embora se sentisse que tinha bastante força no seu corpo firme. Mas eu não consegui fazer nada com ela. A última coisa de que me lembro de ter acontecido antes de eu ter perdido os sentidos foram as palavras que proferiu: “Não, acalma-te.” E, ainda antes disso, lembro-me de ter sido invadido por um pavor incrivelmente forte. Pavor não sabia de quê, como por vezes na infância quando se está só em casa e surge o medo de algo. Quando eu acordei ela estava de joelhos à minha frente. Uma das suas mãos pousada no meu peito, a outra acenando a alguém para cima e para os lados. Ela sorria, mas não para mim, parecia que era para alguém que invisivelmente nos rodeava ou estava por cima de nós. Era como se Anastasia mostrasse com o seu gesto ao seu amigo invisível que nada de mal se passava com ela. Depois olhou-me nos olhos tranquila e carinhosamente. - Acalma-te, Vladimir, já passou. - Mas o que é que foi isso? – perguntei eu. - A Harmonia não aceitou a tua atitute para comigo. O desejo que surgiu em ti. Tu mais tarde poderás entender tudo por ti mesmo. -Qual harmonia, o que é que ela tem a ver? Tu é que começaste a resistir. - E eu também não aceitei. Não estava a ser agradável. Eu sentei-me e cheguei a mala para perto de mim. - Ora essa! Não aceitou! Não estava a ser agradável... Sim, vocês mulheres, só sabem é fazer tudo para seduzir. Despem as pernas, põem o peito à mostra, andam de saltos altos. Não é cómodo andar de saltos, mas andam! Andam e abanam todos os vossos atributos. Mas quando se quer...: “Ah, não preciso disso, eu não sou dessas...” Então, para que é que se abanam? Hipócritas! Eu sou um empresário, já vi muitas diferentes. Todas vocês querem o mesmo, só se dobram é de maneiras diferentes. E tu, porque é que tiraste a roupa de cima? Não está calor! Depois deitaste-te, caladinha, e ainda sorrias assim... - Não me sinto confortável com roupas, Vladimir. Eu visto-as quando saio da floresta para as pessoas, para me parecer com todos. Debaixo do sol deitei-me a descansar e para não te incomodar enquanto comias. - Não me querias incomodar... mas incomodaste. - Perdoa-me, por favor, Vladimir. É claro que estás certo quando dizes que cada mulher quer que os homens lhe dêem atenção, mas não apenas às pernas e ao peito. Quer que passe por si aquele, o único, que poderá ver mais. - Mas aqui não passa ninguém! E o que é que é preciso ver mais, se em primeiro plano estão chapadas as pernas? Vocês, mulheres, não são nada lógicas. - Sim, infelizmente por vezes é assim... Mas vamos andando, Vladimir? Já acabaste de comer? Descansaste? Ainda me surgiu o pensamento: “será que vale a pena continuar a andar com esta ‘filosofista’”? Mas disse: - Está bem, vamos. [1] Na Rússia, antes da Perestroika, era necessário ter uma espécie de visto para entrar e permanecer nas grandes cidades. [2] os Lykov – uma família que viveu em isolamento auto-imposto na taiga desconhecida para o mundo exterior durante a maior parte do período soviético. Foram descobertos por um grupo de geólogos em 1978. A sua história é contada pelo jornalista da Komsomol’skaia Pravda Vasily Peskov no seu livro Perdidos na taiga.
|